Estratégias de bolso para escolher um bom vinho tinto

Não existe uma, mas sim milhares de maneiras para se escolher um bom vinho, caso nunca o tenha tomado ou visto na vida; Cada pessoa que gosta de vinho acaba desenvolvendo uma maneira particular, pode pegar uma dica ali, escutar uma sugestão ali, especular algumas informações, mas no final o critério passa a ser só seu e é muito importante que seja desta maneira. Pode levar anos para funcionar e, de fato, o aprimoramento de um critério nunca termina, mas sempre evolui junto com o paladar que refinamos com o tempo. Isso lembra o que um amigo meu venezuelano, o Gabriel, disse certa vez sobre o D. Quixote de Cervantes, cuja leitura, segundo ele, pode mudar completamente durante a evolução da vida de uma pessoa. Bem, com vinho é a mesma coisa. Acho que já deu pra sacar né? Acho que também deu pra sacar que estas minhas estratégias refletem apenas o meu modo, minha visão, meus caprichos, etc. Portanto, não quer dizer que alguém deva ler isto e seguir para si, mas pode pelo menos funcionar como uma “dica que se pegou por ali”, entende?
Minha estratégia:

1) Qual cepa, qual uva?
Primeiramente, é muito importante pensar antes na cepa, no tipo de uva viniferae que você está a fim de consumir. Algumas pessoas acabam tendo preferência por uma cepa assim como se diz que determinada cor é predileta em determinado tempo da vida. Enfim, eu já gostei de verde, de azul, de vermelho.. Isso muda, mas uma coisa é certa, cada uva tem características bem marcantes que só elas podem oferecer. E o mais importante de tudo, é a partir da variedade de uva que você escolher que vai determinar todo resto da sua estratégia, como a localização do vinhedo, a procedência de origem, o ano, etc… então pense muito bem nisso. Eu, por exemplo, amo (não é força de expressão não) a variedade “malbec”, que é uma uva bastante equilibrada, mas essencialmente flexível, podendo produzir vinhos com características bem amplas e híbridas; os vinhos podem sair com um corpo bem sólido, denso, ostentoso, belamente bruto, ou até ascender à suavidade de um coral de anjos (que imagem, não?). Mas há uma diversidade de uvas. Vou apresentar mais ou menos uma ordem de cepas e cadenciá-las conforme o seu corpo, do mais forte ao mais suave, na forma como eu as classifico (que claro, há controvérsias):

TINTOS
1) Cabernet Sauvignon, Cabernet franc e Nebbiolo (cepas fortes)
2) Malbec, Shiraz e Pinot Noir (cepas bem flexíveis)
3) Tempranillo, Merlot e Carmenére (cepas mais suaves, podem ficar com menor presença)

2) De que lugar, de que país?

Aí é que está a coisa. Essas perguntas todas dependem do tipo de uva que você escolhe, para cada uma delas variará a prioridade que você deve ter em mente segundo o país, a localidade (em casos mais específicos) e o produtor. Posso dar alguns exemplos.
Digamos que você quer beber um bom “malbec”. Esta cepa é o símbolo da Argentina, é lá que é melhor cultivada e que apresenta os melhores resultados de produção. No Chile e em parte da França, costumam chamá-la de “Cot”. Quando perguntei a um chileno o porque disso ele me respondeu que apesar de pertencerem à mesma variedade, as uvas do Chile não se comparam com as de Argentina. Enfim, patriotismos à parte, a coisa funciona assim: Escolheu malbec? Vai de argentina. Escolheu cabernet sauvignon?… bem aí a coisa é mais ampla, todo lugar tem nem que seja um quintalzinho de cabernet sauvignon, e se encontra no mundo inteiro variedades boas desta cepa. Mas claro, se quiser investir, escolheu cabernet sauvignon?… vai de Bordeaux francês. Shiraz ?… Australia ! Pinot Noir?… Borgonha na França. Carmenére ? Chile sem pestanejar. É assim que se diz não é? Mas olha, pra ficar simples é claro que todos os países podem ter boas produções de cepas símbolos de outros lugares, Chile, por exemplo, produz ótimos cabernet sauvingon de características bordalesas impressionantes. “Ótimo” é pouco, o Chile já teve o feito de produzir, segundo avaliação da WineSpectator, o “melhor cabernet sauvignon do mundo”, o Don Melchor 2003.
3) De que ano?
É a parte que todo mundo acha que deveria estar em primeiro lugar e definitivamente não é assim que as coisas funcionam, por simples razões: Primeiro lema, essa é a informação mais instável e vulnerável que existe… no entanto, pode ser vital. Segundo lema, idade do vinho não quer dizer nada, o ano da safra sim diz tudo!!!! Terceiro lema, quer vinho muito frutado? Vá de vinho jovem, quer vinho com muito corpo, robusto e amadeirado? Vá de vinhos com 5 anos de idade ou mais, com boa capacidade de envelhecimento, especialmente os de tipo Reserva, isto é, vinhos que passaram por um estágio de envelhecimento em barris de carvalho. Sobre as safras em si as coisas variam muito, mas dá pra dar umas dicas. Por exemplo, se você é milionário, França-Bordeaux-1982 é o seu trinômio perfeito. Se você é como eu, tente as seguintes combinações:

Argentina: em geral, 2000 a 2008 (mas muito especialmente 2002, 2005 e 2006)
Chile: 2003, 2004 e 2005 (2003 então nem se fale, é o bicho)
Uruguay: 2005



Don Melchor 2003: perfeito casamento

de grande vinho com grande safra


4) Reserva ou não Reserva?, eis a questão

Essa para mim é a parte mais importante, sem dúvida é a característica que mais me seduz num vinho: Ser reserva. Quando se diz que um vinho é reserva quer dizer que o vinho passou por um tempo envelhecendo em barris de carvalho depois da fermentação malolática. É nesse estágio, quando há troca organoquímica entre o líquido e a madeira, que o vinho adquire aquelas características mais clássicas, que reúnem um determinado bouquet, como se diz rotineiramente. Imaginamos aquela figura do sujeito esnobe, de fraque sentado ao banco de piano encamurçado e sussurrando (claro, porque falar em alto volume é coisa da patuléia de baixo): “bouquet de baunilha, chocolate, pimentão, café, avelãs”. Mas à parte as brincadeiras, isto é verdade, são realmente estes os aromas que procedem das trocas com a madeira; podem, quando dá certo, ser maravilhosos! Eu, pessoalmente, prefiro sempre o amadeirado com muita, mas muita baunilha! Para isso, tem que ter bastante tempo de madeira, a partir de 9 ou 10 meses é quando esta característica fica bem marcante. Tem outra coisa muito importante, se o envelhecimento se deu em barris novos de carvalho (de primeiro uso) ou em barris de segundo uso… Nos barris novos, o líquido se beneficia muito mais da troca com a madeira, portanto, adquire mais as características. É só ver se é reserva, ou gran reserva e tentar ver o tempo de envelhecimento no rótulo de trás. A seguir vai mais ou menos uma tabelinha de referência:

Reserva – 8 a 15 meses
Gran Reserva – 15 a 18 meses
‘Grand Crus’ ou Barolos, etc – podem chegar a dois anos! 24 meses


Nesta foto podemos constatar a informação sobre as características de estágio em barris de carvalho (Reserva) no contra-rótulo: 14 meses. Também há a informação de que o vinho não passou por filtragem. Calma, isso é ótimo, pois preserva ao máximo as características aromáticas e degustativas do vinho. Além disso, ao indicar que o vinho não foi filtrado, isso dá credibilidade ao vinho e ao produtor. É como se ele estivesse te dizendo: “Não preciso esconder nada de você, meu vinho já sai perfeito dos barris de carvalho”.

5) Resumo da ópera.

Sinopse da sequência de coisas que você tem que ver!

1) Uva que eu quero.
2) País, local e produtor que se relacionam bem com essa uva.
3) Anos específicos para essa localidade e a uva.
4) Ser reserva de preferência – quanto mais meses em envelhecendo em carvalho melhor.
5) Se reserva, quanto maior porcentagem do vinho ficou em barris novos de carvalho melhor.

6)Para fechar com chave de ouro, análise custo/benefício: o menor preço que reúne todas estas características.

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